Trombose: Coágulos nunca mais
22/12/2011 - 12:20
Se eles bloqueiam as veias, é sinal de trombose. Quando perguntam ao cirurgião vascular Francisco Osse, do Centro Endovascular de São Paulo, qual a sua profissão, ele costuma responder: “Sou um encanador de luxo”. É que o médico trabalha com as tubulações de uma propriedade muito especial, o corpo humano. Dentro dele, há canos que distribuem o sangue cheio de oxigênio, as artérias, e outros que conduzem o líquido de volta à estação de tratamento formada pelo coração e os pulmões, as veias. Ambos podem enferrujar e alojar coágulos, um emaranhado de células sanguíneas que atrapalha a circulação. “Mas esse fenômeno é dez vezes mais comum nas veias”, diz.
Por uma conjunção de fatores, que englobam de predisposição genética a traumas físicos, a coagulação, indispensável para conter hemorragias, se intensifica demais, a ponto de gerar uma massa sólida de sangue que bloqueia o fluxo rumo ao coração. “O coágulo parece uma gelatina endurecida e pode se estender por um longo trecho da veia”, descreve Osse. E os vasos da perna são o maior berçário de trombos. “Isso porque eles sofrem mais para vencer a gravidade”, diz o cirurgião vascular Nilo Izukawa, do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, na capital paulista. O perigo é que os coágulos boicotam o trânsito sanguíneo, gerando a trombose, e ainda podem soltar pedacinhos que viajam até os pulmões, causando a temida embolia pulmonar, problema por trás de insuficiência respiratória e altamente mortal. Ainda bem que um procedimento à base de cateteres e stents começa a ser difundido no país para desentupir o cano e prevenir o sufoco.
Não basta perambular dentro dos encanamentos venosos para entender como os trombos são eliminados. Convém esmiuçar o que favorece seu aparecimento. Muitas vezes, a pessoa carrega desde o berço um defeito no conjunto de reações químicas batizado de cascata de coagulação. “Indivíduos com sangue A positivo têm uma deficiência em uma das moléculas desse processo”, exemplifica Osse. Há inclusive quem apresente, por influência dos genes, uma condição conhecida como trombofilia e, assim, é naturalmente mais suscetível à trombose.
Mas o gatilho pode ser puxado por uma simples pancada, que lesa a parede da veia, ou, por outro lado, pelo repouso prolongado: tempo demais sentado no avião ou acamado no leito hospitalar. No caso, o mal é desencadeado porque o sangue circula lento demais. “Cirurgias e infecções também contribuem para o problema porque, quando as células morrem, liberam substâncias que interferem na coagulação”, conta o cirurgião vascular Jackson Caiafa, da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Até doenças como o câncer e seu próprio tratamento somam forças em prol dos trombos.
Outra condição que, sem querer, patrocina a doença é a gravidez. “Com o útero grande, o sangue tende a retornar das pernas mais devagar. Além disso, a gestação altera a coagulação”, explica o cirurgião vascular Alexandre Fioranelli, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. “O risco é ainda maior no pós-parto, daí por que indicamos à paciente voltar a andar o quanto antes depois de o beber nascer”, diz. Mesmo as mulheres que não querem filhos agora devem tomar cuidado: alguns anticoncepcionais tendem a incentivar a confusão nas veias ao mexer com a cascata coagulante.
À caça dos coágulos - Nem sempre a trombose dá sintoma, mas é comum ela se manifestar por meio de inchaço, dor e fadiga no local do problema. Os especialistas se valem de um ultrassom com doppler para rastrear entupimentos venosos. Com o diagnóstico dado, a terapia varia de acordo com a gravidade da situação. Pode-se recorrer a comprimidos que atenuam a coagulação destrambelhada e meias elásticas para prevenir que a situação piore. “As meias comprimem mais intensamente o tornozelo e a pressão diminui à medida que ela sobe até a coxa. Isso auxilia o retorno venoso”, explica o cirurgião vascular Marcondes Figueiredo, da SBACV. Coágulos maiores exigem medicamentos injetados, como as heparinas, que visam brecar sua evolução.
Mas, quando os trombos dominam as veias pra valer, não basta impedir que eles cresçam. É preciso tirá-los de cena. Aí entra o tratamento endovascular, que, por meio de cateteres, drogas e stents, devolve a liberdade ao vaso entupido. “O método promove uma revascularização rápida e eficaz e o paciente volta à vida normal em até dez dias”, conta Osse.