04/06/2010 - 10:39
Fotos: Gislane Cascaes e Charles Schelter/ORS
Ao lado a primeira construção da Geschäftshaus Feuser, feita pelo fundador Anthon Effting
empreendedor
A história do empreendimento da Geschäftshaus Feuser, que quer dizer: Casa Comercial, e de Vargem do Cedro se completam, pois seu fundador, o alemão Anthon Effting, liderou um grupo de imigrantes às terras onde hoje está Vargem do Cedro por volta de 1880. Ajudou a abrir a mata, a construir casas e fixou também suas raízes neste lugar.
Rememorar a história dessa casa é um privilégio e por que não uma obrigação, para que sirva de fonte de inspiração para àqueles que pensam empreender um dia.
Tempos difíceis fora àqueles em que todos tinham pouco, em que estradas eram picadas em meio à mata e que tudo se transportava em carros de bois e no lombo de mulas e cavalos. Mas seu Anthon Effting não tinha medo, ou como diz sua bisneta Cacilda Feuser, “não se deixava abater pelas dificuldades e trabalhava muito”.
Com tino para o comércio logo percebeu a necessidade das famílias em suprir as necessidades básicas da época e, anexa à sua casa, construiu sua primeira venda, onde vendia artigos como sal, querosene e tecidos para a confecção de roupas. No início a razão social era Comércio de Secos e Molhados – Venda de Anthon Effting.
Em 1910 as coisas foram melhorando e seu Anthon já tinha economias suficientes para melhorar a residência. Foi quando construiu uma casa de dois pavimentos para a família e uma casa comercial, a primeira da região. Edificações estas que embelezam e preservam a tradição alemã na comunidade de Vargem do Cedro.
Os anos foram passando, as necessidades aumentando e a família Effting foi se adequando aos tempos e seu Anthon dividiu com os filhos as responsabilidades. A empresa passou a se chamar Antônio Effting Filhos & Cia e nesta ocasião também construíram uma Fábrica de Produtos Suínos, onde eram abatidos em média 100 porcos por semana.
A banha era filtrada e vendida para a Casa da Banha no Rio de Janeiro e a carne ia para a feira realizada duas vezes por semana na Praça da Bandeira em Laguna, Santa Catarina.
A comercialização da banha exigia um cuidado maior, por isso a própria fábrica produzia as latas para sua armazenagem. Tais latas eram produzidas a partir de folhas de flandres, material de alta resistência à corrosão, o mesmo material utilizado até hoje para a conservação de produtos alimentícios. As latas eram embaladas em caixas de madeiras e recebiam o carimbo da empresa, carimbo este que a bisneta Cacilda guarda com orgulho até hoje. “Orgulha-nos saber que Vargem do Cedro enviava para o Rio de Janeiro os produtos daqui”, lembra Cacilda.
As ideias da família não pararam por ai. E construíram uma fábrica de suco e óleo de laranja. Mais uma vez os produtos de Vargem do Cedo ultrapassaram os limites da cidade. O suco era vendido para uma fábrica de refrigerantes da Max William, em Jaraguá do Sul. O óleo, que era extraído da casca, era vendido para uma empresa de Porto Alegre.
O impressionante neste ponto da história não é descobrir que o comércio já era forte naquele tempo e sim como o transporte das mercadorias era feito. Produtos como feijão, batatinha, farinha, carne suína, dúzias de ovos, manteiga, banha e outros desciam para a cidade de Laguna em carros de bois até Aratingaúba, viagem esta que levava aproximadamente seis horas. E depois, em dias ou mais em barcos à vela até o porto da cidade, onde os produtos eram separados, alguns para feira da Praça da Bandeira e outros, como a banha para as cidades de destino geralmente em navios como o Max Hoepcke, de propriedade de Carl Hoepcke.
Em 1955, José Feuser casou-se com Maria Tabita Effting e durante muito tempo o casal este a frente do comércio. Atualmente, seu José Feuser acompanha a filha, Cacilda Feuser na casa comercial, mas é ela a responsável por tudo.
O ambiente - A Geschäftshaus Feuser conserva em todo o seu interior a mobília e o ar dos tempos passados, que são a atração da casa nos dias de hoje. Cacilda conta que muitos dos turistas que visitam o estabelecimento dizem aos filhos que este é o shopping de seu tempo. “Eles comentam com os filhos que antigamente era assim que as coisas eram oferecidas às pessoas e se encantam com a propriedade e a capacidade que temos de preservar a característica de nosso ambiente, como nos tempos do meu bisavô”. Cacilda confessa que quando o turismo desabrochou na cidade pensaram em transformar o local em um supermercado. “Pensamos e todos nos disseram: de forma alguma”.
Não sabem eles que a beleza e o encantamento desse lugar está justamente na ausência da cor que o tempo fez questão de desbotar.
Nos dias de hoje – a Geschäftshaus Feuser oferece à comunidade local e aos turistas que visitam Vargem do Cedro, em torno de 10 mil, um pouco de tudo. “Nós conservamos a ideia dos “Secos e Molhados” onde as pessoas compravam alimentos, roupas, utensílios para casa e para a agricultura. Vamos nos adequando aos tempos modernos. Sempre desejando, é claro, satisfazer aos que nos procuram”, relata Cacilda.
Seu José Feuser, por outro lado, conserva viva as histórias que viveu e ajudou a escrever. Relata com propriedade e com precisão de nomes e datas de eventos políticos da região. “Trouxe vários governadores aqui, alguns só prometeram e outros contribuíram para o desenvolvimento da cidade”, comenta ele. Lembra também que viu a cidade crescer. A comunidade que se formou de sete famílias hoje é destaque mundial sendo a Capital das Vocações Religiosas. “Temos filhos de Vargem do Cedro, irmãs e padres espalhados mundo afora”. Seu José orgulha-se de ter participado na abertura das estradas. “O padre dizia: quero um membro de cada família para ajudar e lá íamos todos no dia seguinte”. Lembra também do sacrifício das pessoas quando não se tinha luz elétrica e quando a viagem ao invés de horas levavam dias. “Lembro de um dia quando fui a Laguna com meu sogro, já com uma Caminhonete Rural, e ele perguntou ao passar na ponte de Cabeçudas, já estamos aqui?”
José Feuser e a filha Cacilda lembram também das músicas que cantavam para receberem os turistas. “No início os grupos de hóspedes das pousadas eram reunidos e nós cantávamos inúmeras músicas em alemão e em português e todos se alegram e dançavam”.
Infelizmente nos últimos tempos a cidade de São Martinho deixou de investir no turismo. “Devemos muito ao Gervásio Back Loffi, que foi um desbravador do turismo na região. Porém é necessário que outros façam novos investimentos na nossa cidade, para que se passa oferecer ainda mais àqueles que nos visitam”, afirma Feuser.
Hoje as pessoas têm dificuldade para abrir e manter um negócio, porém a persistência de alguns faz a diferença. O exemplo da Geschäftshaus Feuser que neste ano completa um século de existência é algo que nos faz refletir e muito sobre o mundo dos negócios. Diante disso é justo afirmar que nos dias de hoje há espaço para todos basta encontrar o seu diferencial, e atender da melhor maneira possível, sendo você mesmo.
Horário de atendimento: todos os dias, inclusive sábados e domingos em horário comercial.
Telefone: (48) 3645-6323 ramal 29 e 8834-3874
Oferece: produtos coloniais, artesanatos, artigos para presente, confecções, gêneros alimentícios, bebidas e outros.
Localização: Estrada Geral Vargem do Cedro, Centro – ao lado da Igreja Matriz São Sebastião.
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