Educação sexual
02/09/2010 - 09:45
• Léo Rosa de Andrade
Não faz assim muito tempo, o cômodo da casa destinado ao casal ostentava, no alto da cabeceira da cama, um crucifixo. Estava lá um Cristo, não por suas melhores ideias, mas para lembrar que o humano é pecador e corre o risco de, havendo eternidade, padecê-la no inferno, que seria um lugar ruim. Uso o verbo no condicional, porque não falta quem defenda que o inferno é um lugar bem mais animado do que o céu. Nisso, não creio que seja bom nem mau, nem o céu, nem o inferno; acompanho os cristãos, que não querem ir nem para um nem para outro, querem mesmo é ficar vivos, nesse antro de provações, que é o lugar em que estão.
Lembro do vencido costume porque quero escrever sobre orientação sexual, e, como é sabido, cultura cristã e sexualidade nunca se deram muito bem. Nos tempos do crucifixo, no dia em que o marido deveria comparecer (era o termo), virava-se Jesus para a parede. Ao fim do ato, se o recompunha. Discutia-se se seria adequado deixar o filho-do-homem desse jeito. A conclusão teria sido a de que assim, pelo menos, não veria a “pouca vergonha” a seus pés (sexo era só para procriação). O assunto sexo, em família, era mais ou menos isso.
E a educação sexual? As moças, quando estavam para casar, recebiam, em conversa séria, uma orientação geral da mãe, que passava o essencial. E os moços, num dia qualquer, eram, pelo pai, levados à zona de meretrício e, lá, entregues à iniciação por meio de uma profissional, a qual, geralmente, já adquirira a confiança do progenitor.
Para a angústia do pensamento conservador, esse assunto, hoje, atinge mais precocemente a garotada. E então, dado que há perguntas, alguém deve dar as respostas. Alguns colégios se prontificaram, uma “tia” encararia o tema. Muitos pais se horrorizaram: seus rebentos jamais falaram “nisso”, e falar em sexo na escola só adiantaria uma questão espinhosa. Pra que, pois, adiantar as coisas? De todo modo, as coisas se foram adiantando, e algumas escolas abordam a questão. Pessoalmente, tenho desconfiança do que é feito.
Discursos moralistas à parte, não conheço ninguém (que não esteja ou necessite de tratamento) que não tenha no sexo uma saudável fonte de prazer. A questão é que se estabeleceu, com sucesso, certa hipocrisia: o que serve para mim, não serve para os meus filhos. Essa ideia é traduzida numa frase, também ou mais, hipócrita: tudo tem uma idade certa. Claro, o organismo humano se desenvolve e tem etapas muito distintas. O problema é querer conter as demandas do indivíduo já sexualmente maduro dentro dos preconceitos vigentes. E aí, as aulas de orientação sexual tomam uma tremenda importância.
Não creio que haja um momento específico para abordar o tema. Penso que, sem esticálo, deve-se responder a perguntas que a garotada possa fazer. Nunca é cedo nem tarde; se houve curiosidade, é porque o assunto chegou. A questão não comporta especialistas, nem pede cientificismos. Mas, voltando à escola. Que “tia” está habilitada para tanto? Se alguém fosse tratar da questão com criança minha, gostaria que fosse pessoa satisfeita sexualmente, soubesse explorar os prazeres do próprio corpo, tivesse uma cabeça liberada. Sim, claro e sempre, que também alertasse sobre gravidez indesejada e outros riscos.
Mas o que me preocupa, sobretudo, é a possibilidade de a coisa ser encarada como conselho, como risco, como pode-não-pode, como discurso sobre o “normal”; lições de sexo como dever, disciplina e interdição. Seria um horror que se estabelecesse uma rede moralizadora sobre a meninada. Melhor, então, que se virem sozinhas. Bem melhor assim do que entregues a algum exército de purificação.
• Doutor em Direito pela UFSC
Psicólogo e Jornalista
Professor da Unisul