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26/08/2010 - 09:28

Dissabores narcísicos

Léo Rosa de Andrade
As pessoas investem suas emoções em coisas, em valores, em outras pessoas. Ocorrem, pois, dores de emoção quando perdemos o aquilo sobre o que investimos, seja porque deixou de existir, seja porque não conseguimos mantê-lo. Perdas e abandonos doem. Freud chama a isso de luto. O luto é sempre narcísico, ou seja, é dolorido porque dói no amor que se tem por si próprio. Sim, cada um de nós se ama a si mesmo acima de tudo, e não se conforma em perder ou ser abandonado. Nisso concorremos com as próprias divindades, que querem, sempre, que todos as amem acima de todas as coisas.
Em psicologia, narcisismo é o investimento exagerado da libido no próprio ego. Traduzindo, narcisismo é o eu sou o bom, o bonito e o gostoso, e só por isso me amo. O narcisista enxerga pouco outras pessoas, o próprio mundo; gosta de se ver, e transforma tudo em seu espelho. Acaba confundido com o mal-amado, pois, ávido por atenção, parece que tem pouca. Não é o caso, ele tem a quota normal que todos recebemos, mas havendo-se acima da conta geral, nunca o que lhe é dado alcançará o que ele entende que necessita.
Isto descreve a aparência evidente do narcisista. Já se conhece bem esse tipo. Mas há outros aspectos que suponho não muito percebidos. O que traz as mais daninhas consequências é a sua resistência a qualquer mudança em si, em seu pensamento, em seu relacionamento com o mundo. Ora, alguém que se considera um pacotinho bem feito, com tudo bem direitinho no seu lugarzinho, não admite mexer em nada. Ele está bem, suas idéias sobre as coisas estão bem, seus planos para o futuro são irretocáveis.
Mas, vamos por partes, que se tudo estivesse bem não haveria a compulsão narcísica. Ele só está bem porque se acredita uma obra de arte. Logo, nunca estará satisfeito, porque nunca se achará suficientemente apreciado. No relacionamento amoroso, por exemplo, a admiração do seu par jamais será bastante. Espera homenagens além das possibilidades do um só que o ama; melhor se a turma o reconhecer, se o mundo o desejar. Caso isso não aconteça, o sujeito dá um jeito de exibir-se. Exibindo-se e não obtendo amor, torna-se arrogante: as pessoas seriam tolas; ou fica depressivo: não é reconhecido como deveria.
Suas ideias são as da salvação: diante das discordâncias, se o narcísico está em boa posição, dirige um olhar superior ao dissidente: age piedosamente com o ignorante que dele discorda, esse ignorante que jamais o alcançará. Se sua posição não está vantajosa, angustia-se na defesa do que só os néscios contestam. Levanta-se, gesticula, torna-se a tonitruante voz da sabedoria. O futuro foi desenhado à sua própria imagem, e, nele, enquadrou quem está em volta. Planejou os ideais do consorte, a profissão dos filhos, a existência, enfim. Vai frustrar-se, claro, e apontará um culpado.
Claro, sem amor próprio, nos dissolvemos na opinião dos outros, nas confrontações cotidianas. Nos excessos, contudo, negamos a realidade. Escolha e abandono, com dor, pelo não escolhido; dor maior, se não somos os eleitos de alguém; dor do dia-a-dia, porque a juventude nos abandona, nossos costumes são substituídos, nossas ideias saem da moda, nossos entes queridos morrem, nossos sonhos não se realizam. Toca-nos uma melancolia, um luto triste. Mas é assim: entramos em resguardo, lambemos as feridas, sacudimos a poeira e damos a volta por cima, porque a vida continua. Nisso tudo, goste-se um tanto, namore um pouco, faça humor consigo mesmo e não se tenha em tanta conta assim.

Doutor em Direito pela UFSC.
Psicólogo e Jornalista.                                                
Professor da Unisul.

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