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O grande Ataulfo

Fonte: Luiz Henrique da Silveira - Governador do Estado

Num 20 de abril, de 1969, morria, no Rio de Janeiro, Ataulfo Alves, responsável por uma das mais extensas musicografias da nossa história musical, tanto em número de composições gravadas e editadas – cerca de 320 – como em número de sucessos. Com oito anos, já fazia versos, respondendo aos improvisos do pai.

Num 20 de abril, de 1969, morria, no Rio de Janeiro, Ataulfo Alves, responsável por uma das mais extensas musicografias da nossa história musical, tanto em número de composições gravadas e editadas – cerca de 320 – como em número de sucessos. Com oito anos, já fazia versos, respondendo aos improvisos do pai. Com a morte precoce deste, aos dez anos começou a ajudar a mãe no sustento da casa: foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas na estação, menino de recados, marceneiro, engraxate, lavrador e prático de farmácia. Depois do trabalho, freqüentava rodas de samba, onde tocava violão, cavaquinho e bandolim. São dele, entre outros sucessos: “Mulata Assanhada” (Ô, mulata assanhada/Que passa com graça/Fazendo pirraça/Fingindo inocente/Tirando o sossego da gente!); “Atire a Primeira Pedra” (Covarde sei que me podem chamar/Porque não calo no peito dessa dor/Atire a primeira pedra! , ai, ai, ai/Aquele que não sofreu por amor); “Laranja Madura” (Laranja madura na beira da estrada/Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé); “Na Cadência do Samba” (Quero morrer numa batucada de bamba/Na cadência bonita do samba); “Brasil Pandeiro” (Brasil, esquentai vossos pandeiros/Iluminai os terreiros/Que nós queremos sambar). Ao gravar a composição de Assis Valente, “Brasil Pandeiro” (de 1940), com forte influência da antropofagia de Oswald de Andrade, Ataulfo antecipava o Tropicalismo em mais de 30 anos: “O Tio Sam está querendo/Conhecer a nossa batucada/Anda dizendo que o molho da baiana/Melhorou seu prato/Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará,/Na Casa Branca já dançou a batucada/Com Ioiô e Iaiá... “. Segundo Mário Lago, autor da letra de “Ai Que Saudades da Amélia”, ela foi inspirada numa figura real - a lavadeira da cantora Aracy de Almeida. Amélia transformou-se então, de mero nome próprio de mulher, em substantivo comum para qualificar a dona-de-casa,! dedicada ao seu marido e ao lar e, além de tudo, conformada! De personagem de samba, em vocábulo do dicionário. Quem teve o privilégio de ouvi-lo, percebia uma marca muito pessoal, inconfundível: uma cadência arrastada, um andamento lento e lamentoso, com uma espécie de atraso rítmico que, dizem os entendidos, se devia à mescla do seu samba com a toada mineira. Ataulfo Alves foi o primeiro compositor da história da música brasileira a se tornar também cantor, transformando-se no principal intérprete de suas composições. Em 1942, devido a uma situação financeira difícil e à hesitação de muitos cantores em gravar sua ultima composição (em parceria com o letrista Mário Lago), decidiu ele próprio lançar “Ai Que Saudades da Amélia”, para o Carnaval daquele ano. Juntos, voltaram a emplacar outro sucesso, “Atire a Primeira Pedra”, no Carnaval de 1944. Ao contrário da maioria dos sambistas negros e cariocas, que, em geral, cultivavam a impressão de serem malandros, tanto pelas roupas que usavam como pelo seu comportamento, Ataul! fo, assim como o nosso dândi negro Cruz e Sousa, provavelmente em resposta a atitudes preconceituosas da sociedade de então, preocupava-se sobremaneira com a sua figura, tendo inventado para si uma imagem diferente de sambista. Assumiu a figura do homem elegante, tornando-se uma espécie de dândi do samba. Em 1954, um famoso colunista social, Ibrahim Sued, colocou-o numa lista dos dez homens mais elegantes do Rio naquele ano.

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