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As cicatrizes de Berlim
Não é só a esquálida imagem do que restou da outrora magnífica Catedral de Kaiser Wilhelm. Não é apenas aquele pedaço da nave e da torre que foi deixado em ruína, para testemunha dos horrores da guerra.
Não é só o chocante monumento, construído em forma de cemitério disforme, para relembrar as vítimas do holocausto.
Não é só o que restou dos porões silenciosos do temível prédio da Gestapo, onde as vítimas do Terceiro Reich eram barbaramente torturadas, para indicarem supostos comparsas da resistência ao nazismo.
Não é só o bunker subterrâneo de Adolf Hitler, que todos sabem onde fica, mas despistam quando se pergunta.
Não é só o pedaço do muro, mantido, junto com a sinistra torre de observação, para lembrança dos dias amargos da guerra fria.
Berlim é uma cidade marcada por muitas cicatrizes. Cicatrizes que não estão apenas nas ruas, nas praças, nos edifícios. Cicatrizes, que estão na mente das pessoas, na amarga evocação daqueles dias terríveis.
A reconstrução do Reichstag, o imponente prédio que abriga o Congresso alemão, e celebra a força do poder legislativo e da democracia, não foi suficiente para fechar essas velhas cicatrizes.
Nem a Postdammer Platz, transformada numa bela concentração de prédios de linhas arrojadas, assinados pelos mais famosos arquitetos internacionais; nem o palácio de vidro e de luz, em que se constitui a Estação Ferroviária Central, foram capazes de cicatrizar as chagas de uma cidade atormentada.
Berlim é uma cidade dividida. Mas não é como a capital húngara, que o Rio Danúbio divide em Buda e Pest. No caso magiar, trata-se de uma capital que cresceu simultaneamente, nos dois lados do rio, e soube lançar pontes para ser uma só. No caso germânico, cuida-se de uma cidade que nasceu de várias e se tornou numa só, antes das bombas e do muro.
No início dos anos 1930, as pessoas sonhavam em ir a Paris ou a Berlim, as mais modernas, alegres e boêmias metrópoles da Europa. Hoje, no centro de Berlim, uma praça celebra o nome de seu maior símbolo: Marie Magdelene Von Dietrich, cuja síntese dos prenomes gerou a primeira Marlene da História. Pois até mesmo a homenagem a Marlene Dietrich foi objeto da divisão da cidade. Para uns, assim como Herbert Karajan, ela fora incensada, no início da carreira, como símbolo da grandeza do regime hitlerista. Para outros, foi uma traidora, ao deixar seu país e denunciar os crimes do nazismo.
Berlim tem duas grandes óperas, duas grandes casas de concerto. Tudo é duplicado. Mas, o que parece ser uma boa herança dos tempos das duas Alemanhas, tem hoje o travo amargoso de uma cidade dividida.
O muro foi derrubado, mas ficou nas pessoas, na atmosfera, na arquitetura, nas diferenças econômicas e sociais.
Um muro invisível divide Berlim. O muro da culpa, da mágoa, do luto.
Que o passar do tempo apague tudo isso!
Luiz Henrique Da Silveira
Governador do Estado