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A epopéia do Restelo
A praia do Restelo sempre foi o ponto de partida e regresso dos navegadores-aventureiros portugueses. Foi do Restelo que partiram Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1419-1420, para fazer a primeira grande descoberta: o Porto Santo e a Madeira; foi do Restelo que partiu Diogo Silves, em 1427, chegando aos Açores; foi do Restelo que partiu Gil Eanes, em 1434, dobrando o Cabo Bojador; foi do Restelo que partiu Dinis Dias, em 1445, chegando ao Cabo Verde.
No ano de 1947, Vasco da Gama partia dali, rumo às Indias, dando início a uma gigantesca reviravolta na história da humanidade. Cerca de 10 meses após a partida, a 18 de maio de 1498, a frota de Vasco da Gama chegava a Calecut, e nada mais seria como dantes.
Os feitos de Vasco de Gama e dos que lhe seguiram inspiraram Luis Vaz de Camões para escrever o épico nacional “Os Lusíadas”, que tornaria célebre o mal compreendido “Velho do Restelo”. Primeiro, porque quem não pe! squisa acredita tratar-se de um velho com um “rastelo” na mão, como se fora um jardineiro. Segundo, porque, geralmente apresentado como símbolo da aversão à mudança, do conservadorismo, do ceticismo e falta de ambição, na verdade ele seria a voz da experiência, a expressar um sentimento do próprio Camões. Em sua magistral obra “Os Donos do Poder”, mestre Raymundo Faoro assevera que as dúvidas do “Velho” não eram um medo da aventura em si, mas expressavam sua apreensão em relação à “guerra contra o inimigo próximo, o árabe, que seria esquecido em troca de uma fantasia remota”.
Na esteira do sucesso de Vasco da Gama, outro cavaleiro da Ordem de Cristo - Pedro Alvares Cabral - parte para o que deveria ser apenas uma repetição da viagem original. Concluídos os preparativos, o rei fixou a data da partida: 8 de março de 1500, devendo realizar-se o embarque, como sempre, na praia do Restelo.
Lisboa inteira acorreu para o local a fim de presenciar o grandioso espetáculo. No T! ejo pululavam batéis repletos de gente; trombetas e tambores s! audavam os intrépidos aventureiros. Faltou apenas o personagem principal - o vento -, obrigando a um inesperado adiamento da largada. Mas a espera não foi grande, pois logo no dia seguinte um vento favorável de norte ou nordeste tornou possível a partida.
Ao anoitecer do dia 9 de março de 1500, a grandiosa armada transpunha a barra do Tejo e cortava finalmente a águas do Atlântico rumo às Índias, dando início a uma viagem de sucessos inesperados.
Em 22 de abril, treze dias depois, Cabral chegava ao Brasil.
Acaso, ou não, é outra história, ainda hoje controversa.